A menina, a vitrola e o vestido cor de laranja

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Minha vida nunca foi a de uma princesa, assim como a da grande maioria de minhas contemporâneas. Nunca tive uma casa de bonecas, nossa vida era simples e com o orçamento apertado, mas há um dia especial que se destaca em minha memória, o dia em que me senti uma verdadeira princesa – 25 de outubro de 1979.

Era o meu quinto aniversário. Eu não tinha na época as mesmas expectativas que as meninas de cinco anos tem hoje em relação a aniversários, não esperava uma festa com buffet, personagens da Disney ou algo do gênero, mas eu sabia que era meu aniversário e esperava com uma ansiedade tipicamente infantil a chegada de meu pai com meu presente.

Minha mãe passou a tarde toda na cozinha. Mesmo tendo sob seus cuidados meus dois irmãos mais novos, um com quatro anos e outro com pouco mais de dois meses, ela driblou a falta de tempo, o cansaço e os poucos recursos para fazer meu bolo.

A tarde caiu, a noite chegou e com ela a expectativa só crescia. A qualquer momento meu pai chegaria com meu presente, todos cantariam “parabéns” para mim e comeríamos o delicioso bolo que minha mãe fizera.

E assim aconteceu. Lembro como se fosse ontem. Anoiteceu, vesti meu vestido longo cor de laranja, aliás o único que eu tinha, doado por uma prima mais velha, e fui para a sala, onde havia um par de estofados marrons, uma pequena TV em preto e branco, um xaxim de samambaia e no canto da sala um toca discos de vinil. Meu pai chegou do trabalho trazendo consigo um embrulho em papel colorido e dentro dele meu presente: um par de chinelos “havaianas”, branco com as tiras azuis. Minha mãe trouxe para a sala meu bolo de aniversário – um bolo de fubá, coberto com calda de laranja, no centro uma única vela, daquelas que a gente usava nas emergências quando a rede elétrica falhava e acabava a energia em casa. Todos cantaram “parabéns” para mim, eu batia palmas de tanta felicidade e pensava que não poderia haver mais nada naquele dia que me fizesse mais feliz.

Mas ele se superou. Ele conseguiu fazer eu me sentir ainda mais importante. Meu pai foi até a velha vitrola, colocou nela um de seus discos, infelizmente não me recordo qual foi a música, esse momento tão sublime e memorável tem sua trilha sonora, mas ela está perdida em algum recanto das minhas memórias infantis. E então ele me tirou para dançar. Segurou minhas mãozinhas e começou a girar comigo pela sala, meu vestido cor de laranja rodava e rodava, como em um conto de fadas, a plebeia transformada em princesa.

Tudo isso volta à minha memória envolvido em uma nuvem cintilante, como uma cena de algum filme. Eu não precisei de uma coroa, um castelo ou um vestido de cetim. Eu só precisei ter um pai e uma mãe que me amavam e não mediam esforços para que eu soubesse disso.

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8 de maio

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Hoje é 8 de maio. Houve anos em que comemoramos o dia das mães nesta data. E houve muitos outros nos quais comemoramos o aniversário de meu pai. E do pai de meu pai.

Meu pai faria 60 anos hoje. Teria sido memorável certamente. Ele sempre gostou de festas. Quase consigo vê-lo, barrigudo, com uma bela papada à moda italiana, implicando com minha mãe porque o molho da macarronada está sem sal.

E quando coloco minha mãe em cena, sinto meu coração se aquecer, porque ela ainda está comigo e em dois dias estaremos juntas, ela, eu, minhas filhas e minha neta, quatro gerações de mulheres da família Massa, comemorando o Dia das Mães.

Mas não estaremos apenas as mulheres da família, haverá também os homens, no entanto hoje eles são a minoria nessas datas quando nos reunimos. E as datas comemorativas nunca mais foram completas desde que um deles decidiu tornar-se baiano…

Sim… Hoje é 8 de maio… Como seria bom ter um pai para desejar “feliz aniversário”…

 

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Memórias

Cópia de escola2“A infância, mais do que preparadora para a vida, é a vida em sua essência, e os anos de maturidade se passam no soprar de suas brasas até que sejam apenas cinzas”. (Piers Paul Read)

Uma das primeiras recordações que tenho de minha mãe é de um dia chuvoso e frio. Ela, recostada à cabeceira de sua cama, segurava entre as mãos um livro. Seus olhos passeavam brilhantes pelas páginas e seus lábios vez ou outra esboçavam um sorriso. Havia também momentos em que seu semblante se anuviava e, apesar de seus esforços para disfarçar, eu percebia uma lágrima escorrendo do canto de um de seus olhos. Eu a observava encantada, era quase possível visualizar as cenas que ela estava lendo somente pelas expressões de seu lindo rosto.

Eu ainda não aprendera a ler, sonhava com esse dia, mas até lá teria que me contentar em observar minha mãe e insistir com ela para que me contasse partes do livro da vez. Devo quase cem por cento de meu sucesso acadêmico à minha mãe. Por mais que outras pessoas ao longo de minha vida tenham exercido influência sobre minhas aptidões e escolhas, credito ao exemplo de minha mãe a minha paixão pela leitura e pelos estudos. Várias foram as noites insones compartilhadas numa cumplicidade muda – ela à cabeceira e eu aos pés da cama – cada uma com seu livro, seus sorrisos, suas lágrimas.

1981

O momento tão sonhado finalmente estava chegando. O ano era 1981, o mês, outubro. Afinal meu sétimo aniversário e com ele a possibilidade de ir em breve para a escola, aprender a ler, aquela coisa quase mágica de visualizar histórias que faziam rir ou chorar a partir de pequenos rabiscos até então incompreensíveis. Pré-escola já existia, mas era privilégio de poucos. Para mim, só mesmo a primeira série direto e reto, nua e crua. Da alfabetização, o nível máximo que atingi antes de colocar os pés na escola foi umas garatujas ensinadas por meu pai, que serviriam para me identificar nas folhas mimeografadas que cheiravam a álcool. Só o segundo nome, porque foi o que ele escolheu quando nasci. VANESSA – assim mesmo, tudo de forma e maiúsculo.

1982 – A Primeira série

Fevereiro de 1982 chegou e com ele também a EEPSG “Professor José Henrique de Paula e Silva”, a suave e meiga “tia” Sueli e a macaca Mimi, que me ensinaria com sua cartilha as primeiras sílabas. Não, o meu caminho até a alfabetização não foi suave. Houve mesmo momentos nos quais pensei angustiada com uma angústia infantil das mais doloridas que eu nunca alcançaria meu sonho de decifrar as tais misteriosas letras.

A angústia, no entanto, durou pouco. Ao menos hoje me parece que foi assim. Logo eu já podia distinguir cada letrinha e até juntar algumas delas, o que me rendeu uma fotografia com cara de gente inteligente, afinal agora eu estava Alfabetizada! Vitória!

1983 – As dificuldades

Mas nem tudo era tão interessante quanto eu havia imaginado. Muitos desenhos para pintar com lápis de cor – ah, como eu era péssima! E aquelas coisas que se pareciam com minhas amadas letras e me confundiam, os tais números? Como me senti traída… Ninguém, absolutamente ninguém havia me falado sobre aquelas aberrações que surgiam apenas para tirar minha alegria infantil e complicar minha vida. Nem minha querida mãe, nem meu estabanado pai… E para “ajudar”, a professora não ajudava muito. Sempre mal humorada, a impressão que eu tinha era que o almoço da triste mulher não tinha sido dos melhores. Assim foi minha segunda série, com recordações insípidas na melhor das hipóteses, um ano inteiro entre lágrimas de desespero e suspiros de saudades da queria “tia” Inês.

1984 – Olhai os lírios do Campo

Ano novo, escola nova. 1984, terceira série, agora em outra escola. O tão sonhado domínio da leitura (ao menos a básica) alcançado, no entanto, a acidez da professora Maria Aparecida Nicolai Jacubtovski (pensando bem, como ser simpática com um nome desses?) parecia ter dissolvido em mim aquele primeiro amor pelas palavras. Em casa, minha mãe grávida do quarto e último filho, quase já não lia nada, a não ser as receitas e as bulas dos remédios de meu irmão mais novo. Tão pequeno e tão frágil, vivíamos à sombra da possibilidade de perdê-lo para uma das várias pneumonias que teve. Mas tudo isso passou, ele sobreviveu, cresceu e hoje o sem vergonha fuma feito uma caipora…

E então um dos momentos mais marcantes de minha vida acadêmica. Um breve comentário feito pela Professora Cida (esta também era Maria Aparecida, mas não tinha um sobrenome esquisito, talvez por isso fosse mais simpática) e o interesse surge novamente, a princípio mais como uma curiosidade que foi crescendo até se tornar uma obsessão: enquanto não convenci minha mãe a comprar o tal do livro, não sosseguei. Custou caro, aliás, livros nunca foram baratos em nosso país. “Olhai os lírios do campo”, Érico Veríssimo. O primeiro livro a gente nunca esquece.

Mesmo não entendendo muito bem o que lia, me deliciava com cada nova palavra. As que eu não conhecia, corria a perguntar para mamãe, até que ela se cansou de tantas perguntas e me apresentou o digníssimo senhor Dicionário.

O “Ginásio”

Este foi o início de um relacionamento duradouro e feliz. No ano de 1984 li meu primeiro de muitos livros. Eu costumava marcar em um caderninho cada um dos que lia, com o nome do autor e sobre o que era a história. Claro que não me lembro de exatamente quantos foram em cada ano, mas sei que em 84, o primeiro ano das leituras, “devorei” mais de 80. Claro que nem todos se assemelharam ao primeiro em termos de complexidade. Comecei com a série “Gisela e Prisco”, sobre a adolescente e seu cachorro desvendando os mistérios mais misteriosos de sua vizinhança. Depois passei por toda a “Coleção Vagalume”, com seus emocionantes “Zezinho, o dono da porquinha preta” e “Éramos seis”, ou seus movimentados e misteriosos “Um cadáver ouve rádio” e “O caso da borboleta Atíria”. Ainda hoje, ao entrar em um sebo vou direto procurar novidades dessa coleção. É verdade que já não me causam a mesma emoção de antes, mas a leitura é válida como uma seção nostalgia.

Esses foram meus fiéis companheiros de “ginásio”. Meus únicos amigos, na verdade. Não que eu fosse antissocial ou não quisesse ter amigos, mas é que para uma menina magrela, desajeitada e feia, conquistar a simpatia de uns poucos era muito complicado. O termo bullying ainda não existia, mas as atitudes já. Apelidos eu colecionei. Histórias que hoje me fazem rir quando conto para minhas filhas, um dia já me causaram lágrimas amargas.

E analisando toda essa primeira fase de minha vida acadêmica, à qual atualmente chamamos “Ensino Fundamental”, vejo que mesmo as dificuldades contribuíram para minha formação. Não consigo imaginar que tipo de pessoa eu seria se ao invés de ser excluída pelo grupo, eu fosse popular. Hoje meus colegas de faculdade também me dão apelidos e eu prefiro os atuais: “Enciclopédia”, “Google”, “Aurélia”… A falta de atrativos físicos e consequente impopularidade me impulsionaram para os estudos, para a leitura. Os livros eram meu refúgio. As notas mais altas, minha vingança. Os que hoje me consideram “inteligente” não conhecem minha história e não sabem o quanto lutei comigo mesma para superar minhas dificuldades. A primeira delas foi a timidez natural, incentivada pela maneira como fui educada nos primeiros anos de vida. As crianças de meu tempo não recebiam a atenção exagerada que recebem as de hoje. Não nos era permitido participar de conversas com adultos e ninguém achava graça se falássemos alguma besteira. Em vez disso, o que acontecia era uma bronca daquelas, quando não umas boas chineladas. E para complicar ainda mais um pouco a dificuldade que eu enfrentava para fazer amigos, some-se a inconstância geográfica de meu pai, de espírito aventureiro e andarilho, mudando ano a ano de cidade e consequentemente nos obrigando a mim e a meus irmãos a nos mudarmos de escola. Quando pensávamos iniciar amizades um pouco mais sólidas, lá vinha ele com a novidade de uma “ótima” proposta de emprego lá onde o Judas perdeu as botas. A quinta série eu cursei em três escolas diferentes. E só permanecemos sempre matriculados graças à firmeza de minha mãe que comprou brigas homéricas com meu pai que achava uma bobagem se preocupar tanto com “esse negócio de escola”.

O “colegial” em Conchal

E assim cheguei ao fim de minha oitava série, de escola em escola, com poucos amigos, muito insegura quanto à aparência e ainda apaixonada por livros. Ao final do “ginásio” já encontrara companhias mais estruturadas, como Agatha Christie e Sidney Sheldon. Claro que não eram assim uns Dostoyevski, mas nada mal para uma garota de escola pública com apenas 15 anos.

O “colegial” chegou, com uma nova cidade e uma nova escola. Dessa vez eu estava gostando da ideia de mudança. A cidade natal de minha mãe tinha também sido palco de quase todas as férias de minha infância, palco também de meu primeiro beijo, minha primeira “discoteca”. Sair da infernal Santo André para uma cidade onde a liberdade seria incomparavelmente maior era como ganhar na loteria. O ano então era 1990.

A grande surpresa, logo no início, foi descobrir que a cidade só tinha uma escola que oferecia o “colegial” e só à noite. Minha mãe ficou preocupada. Meu pai queria colocar empecilhos. Mas minhas súplicas lacrimosas somadas à promessa de que eu trabalharia durante o dia para ajudar nas despesas de casa venceram. Escola Padre Orestes Ladeira, lá vou eu!

E então eu tive que enfrentar novamente a minha aparentemente insuperável timidez. Todo primeiro dia de aula era o mesmo sufoco. Pernas trêmulas, boca seca, falta de ar. Chegar atrasada, nem no pior dos pesadelos. Enfrentar uma sala cheia de pessoas estranhas me olhando? Preferia a morte. E esse primeiro dia, no primeiro colegial, foi o pior. A classe era composta por 43 alunos. Pelo menos a metade estava tentando um “doutorado” em primeiro colegial, se é que você me entende. O mais jovem devia ter já uns 19 anos e de toda aquela gente barulhenta, somente nove pertenciam ao sexo feminino. Para uma adolescente insegura, não penso haver teste mais terrível.

Mas eu sobrevivi. E logo comecei a gostar daquela classe. Eu era bajulada pelos meninos, para quem eu era uma novidade, “a menina que veio de São Paulo”. Já não era mais tão magrela, nem tão feia e logo a minha autoestima cresceu. Iniciei um “pseudo-namoro” com alguém da minha sala, porém não durou muito tempo. Logo conheci outra pessoa, iniciamos um namoro e finalizei o primeiro ano em Conchal gostando um pouco mais de poesia que de romances policiais.

E então, o que eu não havia planejado, aconteceu. Eu sei, parece que agora vou contar que fiquei grávida, não é? Não, nunca gostei de finais clichês. O namoro realmente prosseguiu a despeito do que meus pais ou amigos pensavam. A contrariedade de todos ocorria por ser eu uma católica praticante e ele adventista do sétimo dia. Religiões extremamente diferentes, como conciliar? E eu reconheço que houve muitos conflitos por pontos de vista divergentes. Mas um dia eu resolvi prestar alguma atenção ao que ele tentava me explicar. Afinal devia haver alguma coisa boa em tudo aquilo para prender daquela forma uma pessoa jovem e esclarecida. E quando eu entendi, eu aceitei também. E então meu mundo desmoronou. Ao se tornar pública minha decisão de mudar de religião, perdi a amizade, a consideração e o respeito de quase todos os que se diziam meus amigos.

Foram meses terríveis. Piores que todos os meus dilemas até aquele momento somados e multiplicados. O que ninguém conseguia entender era que minha decisão não fora influenciada por meus sentimentos pessoais em relação àquele namorado. Fora ele quem me convidara a conhecer aquela religião, mas a decisão de me unir a ela nada teve a ver com o fato de namorarmos.

É claro que ninguém iria acreditar. Nem eu, se estivesse do outro lado. Mas isso me causava uma tristeza imensa, uma sensação de solidão indescritível. O namoro já nem andava bem das pernas, para dizer a verdade, mas ele, percebendo a situação em que eu estava, sentindo-se responsável por mim, quis ser um “gentleman”, um cavalheiro. E me pediu em casamento. E eu olhei para os lados e não vi ninguém. E disse “sim”.

Abandonei os estudos aos 16 anos, em junho de 1991, com o segundo ano do colegial ao meio. Retornar e concluir o inacabado foi um dos maiores desafios que já enfrentei em minha vida:

– 1992 – Comecei o magistério, voltando ao primeiro ano; abandonei antes do final do primeiro bimestre;

– 1996 – Voltei à escola, agora grávida de minha segunda filha. A batalha foi difícil, mas contei mais uma vez com minha querida mãe e algumas amigas. Finalizei o segundo ano.

– 1997 – O casamento em ruínas, a mudança para Goiás, a tentativa de continuar estudando, e a frustração de não conseguir. Mais um abandono.

– 1998 – Após a separação, nova tentativa de retorno aos meios acadêmicos. Minhas filhas, ainda pequenas, contudo, demandavam minha presença em algum momento. Parar de trabalhar, impossível. O jeito, abandonar os estudos novamente.

– 1999 – Inicia-se em Conchal o curso Supletivo. O dilema: “Será que eu aguento ao menos seis meses?” Sim, eu aguentei. A tão sonhada formatura, finalmente, com direito a usar beca e ser a oradora da turma. Melhor, impossível. Logo no ano seguinte, mais um lindo presente: minha mãe, que também abandonara o colegial muitos anos antes, decide retornar e tenho a honra e o privilégio de cantar para ela em sua formatura.

Muitos anos se passaram desde a conclusão de meu Ensino Médio. Anos de novas tentativas e novos fracassos. Quase sempre o dilema: estudar ou trabalhar? Quase sempre amargar a derrota e perder mais uma batalha da vida acadêmica, não sem muitas noites em claro e várias lágrimas…  Hoje, a faculdade de Psicologia e a certeza de estar exatamente onde devo estar, mesmo diante das batalhas que ainda enfrento para manter o status de estudante universitária.

Hoje?

Hoje sou o resultado de todas as minhas experiências somadas e misturadas. Sou ainda um pouco da menina tímida e retraída, devoradora de livros, ratinho de biblioteca… Mas sou também a mulher adulta e segura, que tem metas traçadas para a vida, planos e objetivos. Sou o resultado das experiências que vivi e também das frustrações e daquilo que me foi negado. Sou um pouco de cada um com quem me relacionei ao longo dos anos, mas consigo ser eu mesma, única em minha subjetividade.  Sou o resultado de experiências boas e ruins, não sou perfeita, estou longe disso, nem quero ser (bom, talvez um pouco, mas só de vez em quando…), porém, analisando o resultado de minha vida até aqui, creio que posso dizer, assim como meu amigo Fernando Pessoa, que tudo valeu a pena. Não, eu não tenho a alma pequena!

 

 

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Momentos

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Nossa vida é composta por momentos. Claro, isso todo mundo sabe, chega a soar algo clichê iniciar uma postagem assim. No entanto, como a última moda é ignorar tudo o que parece clichê, perdemos a noção da importância de certas verdades aparentemente banais, inclusive esta – a de que nossa vida é composta por momentos. Por exemplo, o momento em que você digita meia dúzia de palavras, talvez as mais importantes de toda a sua vida, porém hesita um instante e ao invés de clicar “enviar”, você prefere “deletar”. Ou o oposto, quando você, sem pensar, envia e depois se arrepende amargamente pelo resto da vida.

Há também o momento em que as palavras estão “amarradas” na garganta, urrando desesperadas para sair, mas você as tranca, e elas escorrem pelos olhos em forma de lágrimas. Ou se disfarçam às vezes de sorriso, às vezes de desprezo…

Mas também existem momentos que não estão diretamente envolvidos com palavras. Digo diretamente porque mesmo não ditas ou escritas, as palavras estão envolvidas. O momento da troca de olhares. Quantas palavras em tão poucos segundos quando dois olhares se cruzam… Certos momentos desse tipo talvez nunca possam ser traduzidos em palavras, todas as existentes talvez fossem poucas.

E assim a vida segue, momento a momento, às vezes com uma fluidez tranquila e serena, às vezes meio truncada e aos solavancos. Mas enquanto houver momentos, sejam eles quais forem, saberemos que há vida. E esse é o momento mais precioso…

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A Cruz

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O paradoxo, absurdo da lógica –
O temido e repulsivo objeto
Torna-se o cenário do mais belo
Ato de amor já demonstrado.
A sujeição, humildade, aflição,
Martírio, tormento, suplício…
E sobre o mesmo objeto
A graça, esplendor, imponência,
Gozo, exaltação e júbilo!
O Amor suspenso de sobre a Terra,
Pregado ao objeto-símbolo do ódio,
Da dor, crueldade, amargura.
Transformado por este mesmo Amor
Em objeto de Esperança, Salvação, Redenção.
A Cruz –
Duas traves da mais tosca madeira.
Nela, nada de belo, poético ou inspirador,
Mas, absurdo sem explicação:
Deixou o Criador Seu trono
Do mais puro e precioso ouro
Para deitar-Se sobre esta mesma Cruz – tosca Cruz,
Pesada Cruz,
Amada Cruz.
Cruz de minha Salvação, de meu Perdão,
Cruz da Esperança,
Aos pés da qual deponho a vida
E busco a fonte
Desse amor inesgotável,
Inexplicável,
Eterno e infinito –
O amor de meu Jesus
Suspenso sobre a Cruz!

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Noite

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A noite corre solta lá fora… Em um quarto de hotel, deixo a TV ligada, porém sem som, apenas para espantar a sensação incômoda da solidão. Os canais desfilam diante de meus olhos: filmes, documentários, desenhos, futebol… Tanta gente, tanta vida…
Eu, porém, a cada dia estou um pouco mais morta por dentro. E o mais triste é a certeza de que isso não é apenas uma impressão, é REALIDADE… Afinal, ao envelhecermos, não fazemos nada além do que morrer um pouco, dia a dia, célula a célula…
Minhas mãos sobre o teclado mostram linhas finas, que não existiam anos atrás. Vou ao banheiro e evito olhar o espelho. Veria uma estranha, de olhar encovado, cabelos desgrenhados, muito diferente da mulher jovem e cheia de vida que eu vejo pela manhã.
A noite me transforma… A noite e a solidão. São cúmplices nessa tarefa macabra: me tornar velha, arrancar de mim a vida…
Volto a desfilar os canais na TV… A noite será longa…

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Viagem no Tempo

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A fotografia que eu segurava diante de mim mostrava uma garotinha bem pequena, com os bracinhos gorduchos enlaçando num abraço terno o pescoço de um rapaz bastante jovem. Tinha o tom amarelado, resultante do tempo que corria voraz e não perdoava nem mesmo as fotografias de garotinhas inocentes. Guardei o retrato na agenda, de onde o havia retirado, e enxuguei uma lágrima teimosa que insistia em saltar do canto de meu olho direito. Apesar das dificuldades enfrentadas durante os vinte e quatro anos de relacionamento com o rapaz da foto, sentia falta de meu pai. Mesmo agora, tantos anos após a sua morte, o vazio e a dor eram grandes, e quase me faziam sufocar. Se eu ao menos pudesse voltar no tempo…

Muitos anos antes…
Era uma tarde quente e abafada. A rodoviária estava quase vazia àquele horário, poucos esperavam o próximo ônibus na plataforma. Repentinamente avistei uma figura conhecida subindo as escadas. Gelei. “E se ele me encontrar aqui? Não quero correr o risco de que algum conhecido me veja falando com ele. Provavelmente já está bêbado a essa hora… E veja as roupas que veste… Adora chamar a atenção… Meu ônibus chegou! Ufa! Escapei… Essa foi por pouco…”

Hoje faz mais de dez anos que ele se foi. Morreu jovem, aos 44 anos, vítima de si mesmo: bebeu tanto, durante praticamente toda a vida, até que a cirrose consumiu seu fígado e seu fôlego. Estou na mesma rodoviária, o calor não é tão forte quanto naquele dia, mas ainda assim há poucas pessoas por aqui. Instintivamente olho para a mesma escadaria por onde meu pai subiu alguns anos atrás, meio andrajoso e trôpego. E como se “Alguém” lá em cima lesse meus pensamentos, tenho a impressão de ser atendida e faço uma “viagem” no tempo. Pela escadaria vem um homem, com o mesmo estilo dele, o mesmo tipo de cabelo e de roupas, provavelmente também está bêbado…

Mas a realidade é que viagens no tempo só são possíveis em filmes de ficção. Não é meu pai quem vem ao meu encontro e não tenho a oportunidade de me redimir de minha falta. Ele está morto… Há muitos anos atrás perdi a oportunidade de dizer que o amava apesar de seu gênio difícil e de seu alcoolismo.

Brigamos diversas vezes. E também nos amamos durante toda nossa conturbada coexistência. Sempre que discutíamos, no dia seguinte aparecia ele em casa trazendo uma barra gigande de Laka, meu chocolate favorito. Hoje já nem lembro que gosto tem…

Minhas filhas o conheceram e também o amaram, mas quase já não se lembram dele. Minha neta o adoraria, ele sempre teve muito jeito com crianças, principalmente as bem pequenas.

Olho mais uma vez para o retrato. O homem da escadaria está agora a poucos passos de mim. Meu ônibus chega, mas dessa vez não traz nenhuma sensação de alívio com ele. Olho mais uma vez para o homem, desejando voltar no tempo, poder me aproximar e dizer: “Oi, papai!”, talvez lhe dar um abraço… Talvez molhar a gola de sua camisa com algumas lágrimas e dizer o quanto o amei a vida inteira e o quanto me arrependo por não ter demonstrado…

Perdida em meus devaneios nem noto o ônibus indo embora. O homem se vai também, pela mesma escadaria por onde veio. Perdi meu ônibus, mas perdi algo muito mais importante: perdi uma pessoa que me amava mesmo sanbendo que às vezes eu não conseguia amá-lo na mesma medida, mesmo sabendo que às vezes eu sentia vergonha de sua presença ao meu lado… Sim, porque ele sabia…

Derrotada desço as escadas em busca de uma nova passagem. E de um pouco de alívio…

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